segunda-feira, 23 de novembro de 2009

COMPORTAMENTO

Resolvi postar aqui o meu texto que foi publicado na primeira edição da revista Mulher Executiva (veja o post sobre a revista aqui).


Xô, fofocas!

Manter-se longe das fofocas no trabalho é uma missão bastante desafiadora. Por mais que você fuja, acaba dando de cara com ela nos corredores, no elevador da empresa ou na pausa para o cafezinho. Adotar uma postura profissional e focar os esforços nos resultados é a melhor maneira de despistar os fofoqueiros

Fofoca, mexerico, futrica, boato, intriga, os nomes são os mais variados e bem conhecidos por todas nós. Apesar de a fofoca ser um comportamento cada vez mais mal visto no ambiente de trabalho, ela está presente tanto nas grandes corporações quanto nas empresas familiares. Isso acontece porque a empresa, para alguns – leia-se os fofoqueiros -, é vista como uma arena de competição e não como local de conquistas coletivas, e a fofoca é a ferramenta mais hábil para os que buscam o fortalecimento individual ao invés do sucesso da empresa como grupo.

Instigar e dar continuidade a futricas e mexericos, entre outros males, gera desunião e desconfiança da equipe. A fofoca é muitas vezes a responsável por demissões injustas, por rejeição de projetos de sucesso e por interromper a promoção de talentos. “As conversas no ambiente de trabalho devem se restringir aos planos, às ideias e às execuções. Falar da vida pessoal dos colaboradores, ou divagar sobre aumentos de salários e demissões tira o foco dos resultados”, considera Rodrigo Cardoso, especialista em psicologia e palestrante motivacional.

A história da advogada Joana Godói (nome trocado a pedido da entrevistada), 49 anos, é bastante sintomática. Joana iniciava sua carreira, em 1998, em um dos maiores escritórios de advocacia do País quando a lei de direitos autorais ainda era uma novidade. “Passei a me dedicar à área de propriedade intelectual e queria me tornar uma referência dentro do escritório, pois existiam pouquíssimos profissionais que atuavam nesse ramo no Brasil”. Mas os planos de Joana logo foram interrompidos por uma colega de trabalho. Quando Joana conseguiu que o escritório lhe pagasse um curso que nenhum outro profissional tinha no currículo, a amiga da onça mostrou suas garras. “Ela iniciou uma campanha contra mim. Criou intrigas e boatos de que eu queria centralizar os trabalhos. Era uma coisa velada, invisível, contra a qual eu não conseguia lutar”.

Após dois anos de pressão psicológica e de ficar na geladeira do escritório, Joana foi convidada a trabalhar em uma multinacional líder na produção de softwares. “Adquiri um conhecimento enorme e até tentei parcerias com o escritório, mas, depois do episódio, as portas se fecharam para mim”, conta Joana, que hoje trabalha como advogada autônoma e tem entre seus clientes companhias estrangeiras e importantes portais de internet.

Saia da mira dos fofoqueiros

Os alvos mais comuns dos fofoqueiros são os profissionais que conseguem juntar várias qualidades ao mesmo tempo. Para os línguas de trapo, aquela loira bonita do departamento X não foi promovida por competência, mas porque ela deve ter um caso com o chefe. “Os extraordinários são como ímãs de fofocas. Há muitas coisas boas para falar sobre eles, pois são pessoas realmente acima da média, mas os fofoqueiros gostam de fantasiar e criar histórias”, explica Rodrigo Cardoso.

É claro que descontrair, conversar e dar risada é saudável. Não há nada de mais em contar como foi o final de semana ou se reunir para um happy hour com os colegas de trabalho de vez em quando. “O problema é que quando falamos de alguém acabamos, mesmo sem querer, expondo nosso ponto de vista e nossa opinião. É preciso estar sempre atento para não pesar na dose e a opinião acabar virando fofoca”, explica Ligia Marques, consultora de etiqueta no trabalho e marketing pessoal.

Segundo Ligia, há alguns tipos diferentes de fofoqueiros, mas todos facilmente identificáveis (veja tipos de fofoca no box). “Tem aquele que quer se tornar popular e influente. Ele adora participar de todas as rodas de conversa, sente-se íntimo de qualquer pessoa e tenta obter detalhes da vida dos colegas para poder passar adiante”, diz. Mas tem também os que possuem problemas de autoestima e necessidade de se afirmar no grupo. Esses são desconfiados, invejosos e maldosos. A intenção maior dele é a de puxar o tapete do colega.

Com esse tipo de atitude, o leva-e-traz acaba queimando-se a si mesmo. “Na intenção de se dar bem com todo mundo, o fofoqueiro se faz de amigo de um e fala mal do outro. Mas o que está como amigo agora logo percebe que também será alvo do falatório em algum momento. No final, todo mundo acaba se afastando e o fofoqueiro acaba sozinho”, explica Rodrigo.

Foi o que aconteceu com a colega de Joana. “Não era uma coisa pessoal. A pessoa que me prejudicou falava de qualquer um que atrapalhasse os planos dela. O que me consola é que ela acabou cavando a sua própria demissão”, conta.

As três peneiras

Para não se tornar um mexeriqueiro desagradável, antes de passar uma história a diante faça o teste das três peneiras:
  • Primeiro, para contar uma história é necessário ter absoluta certeza de que ela é verdadeira. Se você tiver dúvida sobre a veracidade da informação bombástica que você tem em mãos, ela fica retida na peneira da verdade.
  • A história que você tem para contar é importante? Torná-la pública trará algum benefício para o seu projeto, para a equipe ou para o seu chefe? Se a resposta for: não estou certa disso, sua informação ficou presa na peneira da relevância.
  • Por último, avalie se a informação passa pela peneira do respeito. Imagine-se como personagem da história que você está prestes a contar. Você se sente confortável com outras pessoas repassando essa história ao seu respeito? Bom, então a sua informação tem outro nome: fofoca!
A culpa é do chefe?

Para Rodrigo Cardoso, o time é reflexo da liderança. É responsabilidade do líder criar um ambiente de trabalho harmonioso. As críticas devem ser feitas individualmente e em particular, para não criar frustrações nem situações de humilhação em relação aos demais colegas de trabalho, enquanto os elogios devem ser coletivos e públicos. “Elogio individual gera intriga e inveja na pessoa que não foi reconhecida. Nos dias atuais, ninguém trabalha sozinho, quando um bom trabalho é realizado, todos no grupo têm importância, em maior ou menor escala.”

O gestor ético, transparente, que sabe estabelecer metas e comunicá-las à sua equipe de maneira clara, dificilmente terá que se preocupar com as conversas de corredor. Já o funcionário que concentra os esforços nos resultados e que sabe se posicionar quando não concorda com a postura da empresa, deixa claro para todos que lançar comentários maldosos contra os colegas não faz parte de seu comportamento. Numa tacada só, tira dos fofoqueiros de plantão a matéria-prima para falarem mal dele e cria uma verdadeira blindagem contra a fofoca.

Tipos de fofoca

Fofoca puxa-saco – história inventada na intenção de agradar e satisfazer o chefe e os níveis hierárquicos mais elevados da empresa. É usada com a finalidade de “limpar a barra” ou dar popularidade ao fofoqueiro.

Fofoca sem querer – fofoca camuflada de opinião ou ponto de vista. O fofoqueiro diz que não queria contar, mas deixou escapar pois aquilo o estava incomodando muito.

Fofoca puxa tapete – é a fofoca direta e mal intencionada. O fofoqueiro tem alvo certo e não medirá esforços enquanto não conseguir derrubar o seu oponente.

Fofoca tiro de misericórdia – o veneno é lançado como sinal de compaixão, pois o fofoqueiro acredita de verdade que a sua vítima merece.

Fofoca “sincera” – fofoca travestida de ajuda. O fofoqueiro finge ser amigo e diz que está contando algo sobre o seu colega pois, na verdade, quer ajudá-lo.

Fofoca baixaria – o fofoqueiro cria histórias fantasiosas para denegrir a imagem da sua vítima. Diz que a estagiária está saindo com o chefe casado, que o novo gerente é homossexual e coisas semelhantes.

Fofoca à toa – é aquela que leva em consideração a roupa ou o novo corte de cabelo do alvo do língua de trapo. O fofoqueiro julga a vítima apenas por características subjetivas.

1 comentários:

Vivian Stychnicki disse...

Estreia na Mulher Executiva!!! Parabéns! Esse texto ficou bem bacana, uma delícia de ler!

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